Ela...

Absorto do que o rodeia, pega no celular sem saber bem com que intuito. Não sabe o que está a fazer, navega pelos menus como navega pela vida. Subitamente pára nas mensagens, aquelas mensagens que um dia Ela lhe enviou. Recorda-as com saudade. Nunca as apagou, talvez para que nunca se esqueça dos tempos em que foram enviadas. Diz para si que já a esqueceu, que tudo passou. Mete-lhe raiva o engano. Continua a amá-la embora o negue mas sabe, à viva força, que é verdade. Ele nunca foi assim, sempre se despreocupou das coisas mas com Ela era diferente. Pensa que talvez seja da idade, afinal não está a ficar mais novo.
Parou naquela mensagem especial que ela lhe enviou após um triunfo pessoal. Sentiu orgulho dela. A coisa que mais admirava nela era a capacidade de trabalho.
Decide pegar no crucifixo que guarda na mesa-de-cabeceira. Sempre foi um homem religioso, fruto de anos de catequese. Considera-se um homem de fé mas admite que, por vezes, a fé se esgota. A indiferença dela é exemplo disso. Acredita de tal forma em Deus que chega mesmo a perguntar-lhe…porquê? Porque tem ele de viver assim? Porque não pode ele amá-la livremente? Ele sabe a resposta mas não a aceita. É dura demais para o fraco coração dele. Sente-se egoísta porque já tem tudo: grande família, grandes amigos, saúde… Talvez por isso não a pode ter. “Não se pode ter tudo”- pensa.
Lembra-se dos casais seus amigos. São como um exemplo para ele, um modelo a seguir. Prometeu, a si mesmo, dizer-lhes isso um dia. Tenta imaginar como seria se namorasse com Ela. Os passeios a Sintra, na Baixa, ás compras durante horas. Tenta não pensar em mais nada para não se chatear. A vida nesse campo não tem sido famosa. De dia ri, manda piadas, dá gargalhadas. Á noite chora, sozinho na escuridão do quarto agarrado com força ao crucifixo, tal como está agora.
Os amigos são o seu grande escape. Amigos esses que ele trata carinhosamente por “pessoal”. As palhaçadas, as futeboladas, os “finos” tirados à pressão, as suecadas… Volta a prometer que um dia lhes dirá isso apesar de achar que eles já o sabem.
Quando dá por si é quase meia-noite. Nem deu pelo tempo passar. Beija o crucifixo e pousa-o novamente na mesa-de-cabeceira. “Amanhã também é dia”- murmura. O sorriso dela é a última coisa de que se lembra antes de adormecer. Amanhã também é dia…

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